quinta-feira, 21 de julho de 2016

Entre Deuses e Homens: Prólogo

ENTRE DEUSES E HOMENS
CANÇÃO DO DESEQUILÍBRIO


PRÓLOGO
A Ascenção de Atrocitus


Era uma noite tempestuosa. De uma severidade que nunca antes fora vista. Os céus rugiam ferozmente, encoando os tenebrosos sons de trovões por quilômetros além das planícies de Galbatroh. Pelo chão, os corpos de elfos e orcs sem vida misturavam-se com os corpos pútridos e mutilados de uma grande horda de mortos-vivos. A única luminosidade provinha dos relâmpagos e das esferas incandescentes que eram regurgitadas das nuvens negras como o piche.

Em meio a todo o caos, poucos ainda podiam ser declarar vivos. Entre esses, quatro homens pareciam ter simplesmente desistido de desistir. Eles lutavam, dando tudo de si, para conseguir salvar seu amigo, seu companheiro, seu irmão. Ah, seu amigo! Possuído por uma entidade ancestral, cegado pelo desejo de poder e sendo usado como instrumento para o terror, ele, com suas asas imponentes, voava pelo céu, murmurando devaneios e cuspindo as mentiras ditas pelo Planetário. Agora, ele não passava de um simples receptáculo. Sua consciência estava perdida em meio ao delírio fervilhante, se afogando ensandecidamente em magia primordial, não compreensível para meros mortais. Mas seus quatro amigos demonstravam fé. Apesar da plena consciência em sua própria falta de capacidade para derrotar a criatura, eles criam que podiam trazer a mente de Calter à tona, tirá-la do abismo que a espada senciente a jogara.

- Lembre-se Calter! Lembre-se de nós! Lembre-se de nossa amizade! Se você não recuperar, quem vai ficar se metamorfoseando em tudo o que vê pela frente, hein? Você sabe que eu não sou bom com metamorfoses. - gritou Tobias, em lágrimas.

O Planetário tinha total controle sobre a mente de Calter. As súplicas, as tentativas de recorrer às boas memórias e nem mesmo os gritos de dor dos homens que lutavam naquelas planícies manchadas pelo escarlate faziam-no sequer vacilar. Era impossível tirar, mesmo que por um mísero segundo, a mente de Calter daquele precipício. O fato do Planetário possuir poder suficiente para até mesmo derrubar deuses tornava a morte certa uma questão de tempo. Pouco tempo.

Quando tentavam voar para alcançar seu amigo, os homens eram chicoteados de volta ao solo por torrentes violentas de vento e gelo. Quando tentavam tirar benefício de suas habilidades mágicas, eles eram sobrepujados pelo terror indescritível da magia primordial do Planetário, falhando miseravelmente.

- Não tem jeito. - Tobias ajoelhou-se em desespero - Fizemos o que podíamos.  Nessa ocasião, mesmo sabendo do poder que ele tinha, nós decidimos lutar. Lutar não só pelas nossas vidas, mas pela de Calter. Só que coragem não foi suficiente. Fracassamos, não fomos fortes o suficiente e nem mesmo Helm, o grande deus protetor, desceu sua mão em nosso auxílio. Isso está decidido. Sempre lutamos até o fim. E este é o fim. É a vontade de Helm.

- Você deveria ter vergonha! Nunca abandono meus irmãos, nem mesmo que eu morra! Eu já disse que só vou morrer enquanto estiver com belas mulheres e um rum da melhor qualidade, totalmente em paz comigo mesmo. Vê rum e mulheres? Eu não vejo rum e mulheres. Nem paz. - bradou Gillion, repreendendo Tobias.

- Ele tem razão, Gillion. É o fim. Sem mulheres... Nem rum... Nem paz. Oh, meu deus, isso é deprimente! - suspirou Paimei.

A criatura, com todo seu poder e suas ações inexoráveis, despejava fúria sobre Galbratoh, reduzindo tudo a uma memória distorcida do que um dia fora uma grande nação além do Plano Material. Quando já quase nada restava, quando tudo que se destacava em meio ao caos rodopiante eram as quatro figuras humanóides, com suas espadas e cajados, a criatura tomou conhecimento de que tudo o que restava a ser feito para partir dali em direção aos seus desígnios impensáveis, era a obliteração de tais figuras. Ela então planou ao chão, pousando. Caminhando lentamente em direção aos aventureiros, que estavam a ponto de largar suas armas e aceitar o destino que estava por vir. Com gloriosos dois metros e meio de altura, um corpo extremamente musculoso, uma beleza que Calter jamais pensara em possuir antes de ter sua mente dominada e longas asas semelhantes a de um celestial, a criatura sussurrava palavras incompreensíveis aos ouvidos mortais, mas claramente pronunciavam a ruína e o terror.

Ao chegar perto o suficiente dos homens, cerca de três metros, a criatura elevou-se, planando a alguns centímetros do solo, levantou sua espada contra eles e disse, com uma voz grave, similar ao som de terremotos:

- Enfim perceberam a inutilidade da resistência. Serei rápido.

Cortou com sua espada então, em direção a eles. Naquelas frações de segundo que antecederam o choque da espada, eles enfim perceberam, da forma mais cabal possível, que a vida deles estava entregue ao destino. E o destino estava favorável, pelo menos foi o que pensaram naquele instante.
Atrocitus, um dos quatro homens, então levantou sua mão e com um único movimento deteu o ataque do Planetário.

- O que é isso? Como isso é possível? - gritou a criatura, completamente incrédula na sua própria visão.

- Irei dizer uma única vez: eu sou Taran, da casa Balerion, primeiro de meu nome, o cavaleiro rubro, príncipe de Midreth, lorde do Vulcão Caldron e agora... PORTADOR DO PLANETÁRIO! - exclamou, enquanto puxava a espada da criatura, com as mãos nuas, desarmando-a.

Ao ter a espada removida de suas mãos, a criatura começou a gritar em agonia, de seus olhos e boca uma forte luz emergira, suas asas começaram lentamente a se desfazer, pena por pena, apodrecendo enquanto sua forma voltava ao que Calter era antes de ser dominado.

Já nas mãos de Atrocitus, a espada começou a proferir blasfêmias na mente dele, seu novo portador, tentando dominá-lo.

- Mortais, sempre fadados ao fracasso. - disse o Planetário na mente de Atrocitus, por meio de telepatia.

- E quem disse que eu sou um mortal? - retrucou Atrocitus, dando risadas num tom macabro, enquanto sobrepujava as tentativas de controle de sua mente, submetendo o próprio Planetário ao seu domínio.

Com o controle da espada, Atrocitus não teve sua forma física e nem sua consciência afetada, mas obteve acesso a todo o poder que o Planetário dispunha e também a algo além daquilo. Um poder que só uma mente resistente o suficiente para não se perder para as seduções da espada podia acessar.

- O que está acontecendo aqui? Co-como você fez isso? - perguntou Paimei, indignado. - Tem coisa aí, tem coisa aí. Acho que tu tava certo sobre o lance de morrer com as mulheres, Gillion.

- Se podia fazer algo do tipo, por que não o fez antes de todas essas mortes acontecerem? - Tobias estava atônito.

Enquanto isso, Gillion já com uma flecha preparada em seu arco, fez sinal para que seus companheiros, que viam Calter cair no chão desacordado, se afastassem de Atrocitus.

- Explique-se. - exigiu.

- Acharam mesmo que eu estava auxiliando vocês? Tiveram a ingenuidade de acreditar que eu, o grande Atrocitus, me misturaria com tipos mortais como vocês, sem um propósito maior por trás disso? Tolos. Vocês foram meras ferramentas. Admito que precisei de vossos conhecimentos para alcançar o Planetário, mas não mais. Ele já está em minha posse. - argumentou, enquanto contemplava o Planetário e todo seu poder, fluindo por seu corpo. - O mundo é grande, muito grande. E além desse mundo, existem outros. Os planos superiores, os inferiores, até mesmo o Reino Distante. E nessa imensidão, segredos se escondem...

Imediatamente após isso, a tempestade cessou. O céu começou a se abrir, e os trovões silenciaram-se. Aquele caos mágico terminara, mas a escuridão mantinha-se. Não era natural, mas também não provinha mais do Planetário. Era algo diferente, talvez mais sinistro. Uma energia fantasmagórica que lentamente preencheu o lugar que antes transbordava de magia primordial. E então, a partir da escuridão profunda dos céus, um grande portal, com cerca de dois quilômetros quadrados, começou a se desenhar ali. Atrocitus continuou em seu ritual de contemplação da espada, como se nada estivesse acontecendo. Já os aventureiros, não sabiam com o que deviam se preocupar mais: com um possível ataque de Atrocitus ou com o grande portal que surgira.

- Ah, não mano. Esse plano é BR, só pode. Isso aí já é demais. - resmungou Paimei.

- O que está acontecendo, Atrocitus? Ou devo chamá-lo de Taran, da casa, ah tanto faz... Vai abrindo o bico. - ordenou Gillion.

- Você verá. - respondeu Atrocitus, enquanto dirigia seus olhos ao portal.

Naquele momento, uma criatura colossal e assombrosa começou a emergir do portal. Conforme saía, seu aspecto macabro ficava mais claro. Era como um grande esqueleto, trajando um manto negro e portando um grande livro. Sua aparência muito assemelhava-se a de um lich. Quando ela efetivamente terminou de sair do portal, Gillion notou um pavoroso sorriso no rosto de Atrocitus.

- Bem-vindo, Vecna! A que devemos a honra? - perguntou Atrocitus à criatura, com impertinente sarcasmo.

- Sabes muito bem o motivo de minha presença. Entregue-me o Planetário. - respondeu a criatura, com uma voz semelhante ao som do bater de asas de milhões de moscas.

- Isto que quer? Então venha, pegue! - desdenhou.

A grotesca criatura permaneceu imóvel, como se estivesse esperando por algo. Tobias, diante de tal cena, não aguentou e desfaleceu, caindo aos braços de Paimei, que numa incrível demonstração de reflexos evitou que ele caísse ao chão.

- Tobias?! - gritou Paimei, assustado.

- A mera presença de Vecna é demais para alguns. Não é mesmo, falcão Mardallis? - questionou Atrocitus, olhando para Gillion.

Gillion ainda apontava a flecha na direção dele, mas seus olhos estavam semicerrados, suas mãos tremiam e seu rosto estava pálido. Era claro o imenso esforço ao qual Gillion estava submetendo-se para simplesmente permanecer consciente.

- Para alguns, talvez. - respondeu ele, com voz rouca. - Mas não para um Mardallis.

- Você sabe muito bem que não está em condições de fazer exigências, Vecna. - disse Atrocitus em alta voz, olhando então para a criatura nos céus. - Não retirou o Planetário de minha posse assim que chegou, pois sabe que não tem capacidade para tal, mesmo sendo um deus. Sou mais poderoso que você. Poderia fatiá-lo agora, como um bezerro, se assim eu quisesse. Mas não... Sua vinda estava em meus planos. O lorde de todos os segredos, que tem conhecimento de tudo que é oculto e daquilo que não deve ser revelado... Era óbvio que você sabia da existência do Planetário, e igualmente óbvio que viria atrás dele quando o selo fosse quebrado. Até porquê, seu grande objetivo, hmm... Bem, coincide exatamente com o meu. O poder do Planetário, no estado atual, ainda é insuficiente para derrotar os deuses maiores, mas com sua ajuda isso não seria um problema. Então proponho-lhe uma aliança. Una-se a mim ou seja aniquilado, aqui e agora.

O silêncio então foi brutal. A criatura estava calada, com suas órbitas oculares queimando com uma luz verde que dançava num ritmo que proclamava a imoralidade. Foram longos dois minutos de trocas de olhares, durante os quais Gillion, apesar de seu esforço, já não era capaz de suportar a pressão avassaladora da presença da deidade. Ele caiu em direção ao chão pouco tempo após o término do pequeno discurso de Atrocitus. Paimei, que já havia repousado Tobias no chão, também urgira para interromper a dolorosa viagem de encontro entre o solo e a face pálida de Gillion.

- Muito bem. Venha comigo. - respondeu a criatura, voltando-se ao portal e desaparecendo lentamente na escuridão do vazio.

Nisso, Atrocitus começou a levitar em direção ao portal, levando consigo o Planetário. Na sua face, era visível o grande sorriso. Um sorriso ensandecido, digno dos personagens aterrorizantes que vivem nos pesadelos mais sombrios. Paimei era o único que restara de pé, vislumbrando aquela cena desprezível, preocupado com seus amigos caídos e começando a alimentar um desejo de vingança em seu interior. Tobias, Calter e Gillion estavam desfalecidos ao chão, exauridos.

Então quando Atrocitus estava prestes a alcançar a altura do portal, olhou para trás. Admirou toda aquela destruição, sentindo-se imensamente satisfeito com tudo que ocorrera, extraindo prazer do caos no qual tudo se tornara. Em meio a isso, também viu seus antigos companheiros, derrotados e enfraquecidos da batalha. Assim, lembrou de tudo que aconteceu entre eles e de como foi bem sucedido em seus planos maquiavélicos, virando-se então para Paimei, dizendo-lhe:

- Já ia esquecendo de vocês, peões. Como prova de minha misericórdia, pouparei suas vidas. - disse, soltando uma gargalhada sinistra logo após. - Mas não pensem que será tão fácil assim. Aprisioná-los-ei em Carceri, de onde jamais sairão! - terminou, sumindo pelo portal.

De repente, uma energia poderosa começou a envolver os aventureiros. Cada parte de seus corpos estava sendo inundado por magia primordial, absoluta e complexa. Lentamente, eles começaram a sumir, seus corpos estavam sendo levados para algum outro lugar. Suas mentes estavam sendo retorcidas pela magia, desfazendo-se da mesma forma que seus corpos. Em meio a isso, Gillion abre os olhos. Zonzo e sem muito controle sobre seus sentidos, ele vira-se para Paimei e pergunta:

- Mas e as mulheres?

Foi a última coisa dita e ouvida antes dos corpos daqueles quatro homens desaparecem completamente, deixando para trás somente a lembrança de uma traição amarga.

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