quinta-feira, 21 de julho de 2016

José, o Kobold destemido

José era um kobold diferente dos outros. Apesar de viver na mesma vila rústica dentro de uma antiga masmorra e partilhar dos hábitos dos outros kobolds, ele tinha características que o tornavam único: sua coragem, sua inteligência, seu carisma e sua velocidade. 

Nunca houve kobold mais corajoso que José
Ele sempre ia na frente do grupo na hora em que precisavam expulsar os ratos do armazém de comida.
Nunca houve kobold mais esperto que José
Ele sempre verificava se a porta tinha maçaneta, antes de simplesmente tentar abrir com força bruta.

Nunca houve kobold mais carismático que José
Ele sempre recebia aplausos de seus colegas quando terminava seus extensos discursos explicando o porquê dele ter que ser o responsável em decidir o cardápio do dia na vila.

Nunca houve kobold mais rápido que José.
 Ele era sempre o último a ser atacado pelos ratos, quando esses venciam a disputa pelo armazém de comida.

Mas José não estava satisfeito em ser somente o melhor kobold da vila. Ele tinha um sonho. Quando era pequeno, ficou encantado pela maneira como os valentes aventureiros saquearam sua vila e eliminaram os mais fortes guerreiros de lá, com suas grandes espadas e seus grimórios cheios de truques. Desde aquela dia, José nunca pensou em vingança. Muito pelo contrário, José decidiu que precisava torna-se um aventureiro.

Então, dia após dia, seja debaixo de sol escaldante ou da chuva torrencial, José nunca cessava seu treinamento. Lutava ferozmente controla os gatos do mato e coelhos que viviam no bosque próximo à masmorra. Fazia cada uma das suas cinco flexões, com seus joelhos sempre firmemente apoiados no chão, dando-lhe o sustento. As abdominais, então, eram o ponto alto. Seu primo Hélio sempre ajudava-lhe com elas, auxiliando no movimento até o abdômen.

Quando completou seus dezoito anos de kobold, ele decidiu que devia partir até a cidade humana próxima, para se candidatar como aventureiro. A comoção foi geral na vila. Todos choravam e pediam para que ele ficasse. Os velhos diziam: "eu vi ele quando era só um ovinho na lama", as mulheres diziam: "era esse o kobold que eu pedi para Kurtulmak casar com minha filha", os jovens diziam: "oh, quem agora vai liderar a investida contra os ratos?". Mas José estava realmente focado em seu propósito e não deixou-se abalar pelas lágrimas de seus colegas. Respirou fundo, olhou seus companheiros com bastante ternura no olhar e disse-lhes:

Esse é um pequeno passo para um kobold, mas um grande passo para nossa espécie. Ah, e seu Manuel, o senhor precisa chamar os guerreiros para ir lá no armazém. Aquelas ratazanas estão com alguma coisa ruim no corpo, eu poderia jurar que elas estavam falando e girando os olhos enquanto comiam o Toninho. Saudades eternas do Toninho, ele era um kobold vida louca de verdade.

E assim foi. Saiu da masmorra feliz em finalmente estar prestes a alcançar seu sonho, seguindo pelo bosque a dentro, em direção à cidade. No caminho, treinou mais e mais, lutando contra as feras do bosque. Não havia um coelho sequer naquele bosque que não tenha tremido em ouvir a voz de José. A única coisa que ele não pôde fazer foram as abdominais, as quais precisava da ajuda de Hélio.

Chegando na cidade, José maravilhou-se. Viu muitas pessoas sorrindo, andando felizes pela cidade. Viu os comércios, cheios de frutas e carnes frescas. Carne de cervo! A coisa mais saborosa que tinha experimentado até então era a carne dos ratos derrotados no armazém. Coelhos, gatos do mato e outros animais similares eram considerados sagrados para ele, pois faziam parte de sua rotina de treino. José ficou bastante empolgado com tudo aquilo, jurou a si mesmo que passaria ali mais tarde para comer um pouco. Ele estava com bastante fome, haja vista que ele não havia tido uma refeição decente desde o momento que os ratos do armazém aprenderam a se defender com lanças. Entretanto, isso não importava agora. O sonho dele estava logo adiante, a taberna! Onde os aventureiros destemidos reuniam-se após suas épicas jornadas de conquista e glória.

Ao passo que se aproximava da taberna, percebeu que as pessoas abriam caminho para ele, afastando-se e cedendo passagem. Ficou muito feliz com a hospitalidade daquela gente.

Assim que chegou na porta da taberna, lembrou de todo o esforço que fez e de tudo que planejou. Então respirou bem fundo, colocou um belo sorriso no rosto e entrou de cabeça erguida dizendo:
Saudações! Sou José, o kobold. Quero ser também um grande aventureiro!

Todos na taberna calaram-se e olharam para José, que estava radiante de alegria.
José foi linchado e amarrado num poste na praça.

MORAL DA HISTÓRIA: Não seja um kobold.

DIGA NÃO AO LINCHAMENTO DE KOBOLDS.
Uma campanha do Hiken & Devaneios contra o preconceito para com os kobolds.

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