quinta-feira, 21 de julho de 2016

Tales & Fables: A Ilha Primordial #2

Daquele dia em diante, Alice começou a mostrar o que aprendera em suas reflexões aos outros devas de seu batalhão, mas sem muito sucesso. Não era como se a trêmula chama da vontade de mudar nunca tivesse queimado nos corações daqueles devas: a questão era que palavras não pareciam bastar e o poder que possuíam fazia questão de declarar constantemente que eles eram demasiadamente fracos para se oporem aos seus superiores, quanto mais para se oporem aos deuses.

Alice era mais forte que eles. Não em poder ou força física, mas em sua determinação. Não desistiu, mesmo vendo-se diante ao aparente fracasso. Continuou falando da liberdade de escolha e da ganância desenfreada dos deuses para todos que queriam ouvir, assim como para os que não queriam. Com o tempo, tornou-se uma excelente oradora, conseguindo alguns seguidores, que se dispuseram a apoiar sua causa. Mas não foi suficiente.

É difícil convencer um ser quase imortal de que ele precisa mudar. Meses e anos são como dias, o tempo arrasta-se, mas a tradição permanece. E foram dezenas de anos para Alice. Dezenas de anos tentando fazê-los entender a verdade, que para ela era clara e evidente, mas para eles era turva e inatingível. Seus poucos seguidores não eram tão determinados, tendo desertado um a um, ao longo dos anos. À cerca do fim dos cinquenta anos que procederam o juramento que fizera, Alice viu-se sozinha novamente. Começou a pensar então que o que tentava fazer era impossível, que aquilo realmente era a natureza, em sua forma nua e crua e que ela nada mais era que uma infeliz exceção à regra.

Dizem que a natureza é um grande maquinário, totalmente harmonioso, regido pelo equilíbrio gerado pelas energias do tecido do real e do imaginário. Que ela não erra, é perfeita e autorregulamentada. Mas isso em si já é um erro. Um erro da natureza, que subestimara as capacidades de Alice.

Eu sou Alice, a deva. Nasci de um ventre desconhecido, fui criada e treinada para a batalha. Enviada como soldado para alcançar o poder Primordial. Eu e meus companheiros lutamos para conseguir o domínio da ilha, para oferecer aos deuses o privilégio de ter acesso à Criação. Nascemos, crescemos, lutamos, sofremos e morremos para que assim seja, enquanto eles sentam-se e vangloriam-se em seus tronos. Se nós que demos nossas vidas por isso, a nós o Primórdio pertence.

Desertando do exército celeste, Alice desceu até a ilha. Resolveu que a solução para o dilema que vivia estava na magia lá presente. Sem que fosse percebida, escorreu até os confins remotos da ilha e por lá vagou.

A ilha não era como uma ilha qualquer no Plano Material. Devido ao fato da magia Primordial estar muito concentrada por lá, a realidade frequentemente confundia-se com o que estava além, tornando o lugar um verdadeiro labirinto sem paredes. E nisso foram mais trinta anos. Trinta anos vagando por lá, em meio ao caos da ilha. Escondendo-se dos seus antigos companheiros, que agora a caçavam como a desertora que havia se tornado, lutando contras aberrações criadas pela magia da ilha e fugindo dos abissais sedentos por derramamento de sangue. Nada ali estava a favor dela, tudo conspirava contra. Foram trinta anos de sofrimento, mas também de fortalecimento. Tanto na sua determinação, como em poder. A luta pela sobrevivência num meio tão hostil, tornou-a forte.

E assim ela continuou, resistindo e se fortalecendo, até que um evento mudou toda sua vida. Durante uma de suas explorações em busca da fonte Primordial na ilha, ela deparou-se com uma figura ao chão, desfalecida. Era um íncubo, um corruptor abissal. Suas grandes asas negras pareciam haver quebrado e seus ferimentos eram radicalmente severos. Provavelmente caíra após uma derrota no espaço aéreo da ilha. Sem demora, Alice tratou de levá-lo a um abrigo, cuidando de seus ferimentos. Dia e noite vigiou, dia e noite certificou-se de trocar as bandagens, dia e noite cuidou da forte febre que assolava a criatura.

Completados oito dias de coma, o íncubo acordou. Desorientado e ainda não totalmente recuperado, levantou lentamente sua cabeça, procurando descobrir onde estava. Só o que via com sua visão embaçada era um vulto prateado à sua frente. Seus sentidos, alertando-lhe do provável perigo, o fizeram terminar abruptamente de levantar da cama, preparando-se para o pior. Então, foi contido de seu ímpeto por uma mão que estendia-se desde o vulto prateado até seu tórax, enquanto uma voz dizia:

Consegue me ouvir? Eu sou Alice. Encontrei você em meio a floresta da ilha, prestes a morrer. Então te trouxe até aqui, cuidei de seus ferimentos, salvando-lhe a vida. Entendo seu espanto, sou uma Celestial. Uma deva. Só que não há necessidade para medo. Não lhe salvei para causar mal, não é assim que eu ajo. Acalme-se, íncubo. Assim que estiver melhor pode ir para onde quiser mas, por enquanto apenas permaneça deitado.

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